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O que é ser NORMAL?

Foto do escritor: Gillian Site
Gillian Site
4 de ago.
3 min de leitura

Quem nunca se perguntou se é uma pessoa normal? Ou se tem uma família, um relacionamento ou uma vida "normal"?

Essa pergunta me faz lembrar uma frase de Nelson Rodrigues: "De perto ninguém é normal."

Ela nos convida a pensar que, quando conhecemos alguém intimamente, encontramos suas contradições, inseguranças, medos, desejos e imperfeições. A ideia de uma pessoa completamente normal começa a desaparecer.

Freud amplia essa reflexão ao mostrar que o inconsciente sempre encontra uma forma de se manifestar. Seja por meio de atos falhos, sonhos, sintomas, gestos ou comportamentos, aquilo que tentamos esconder nem sempre permanece oculto. Todos carregamos conflitos, faltas e desejos inconscientes que, de alguma maneira, aparecem em nossa forma de viver.

Talvez possamos pensar que a normalidade não seja a ausência de sofrimento ou de conflitos, mas a possibilidade de conviver com eles sem ser completamente governado por eles. Quem sabe isso signifique ampliar a consciência sobre a maneira como desejamos, interpretamos o mundo e nos relacionamos com as pessoas.

Isso nos leva a outra pergunta: o que significa estar mais consciente?

Podemos pensar que isso não seja enxergar o mundo sem símbolos ou sem interpretações, isso seria impossível. Somos constituídos pela linguagem e pelos significados que atribuímos às experiências. Mas podemos reconhecer quando estamos olhando para o outro e quando estamos atribuindo a ele sentidos que pertencem mais à nossa própria história do que à realidade da pessoa.

Imagine alguém que cresceu em uma família que valorizava intensamente o conhecimento intelectual. Se essa pessoa ainda busca, de forma inconsciente, reconhecimento e aprovação dos pais, pode acabar se interessando por alguém que usa óculos, associando essa imagem à inteligência e ao estudo.

É claro que usar óculos não torna ninguém mais inteligente. Mas, naquele momento, talvez ela não esteja vendo apenas quem está diante dela. Está respondendo a um símbolo que desperta antigas necessidades afetivas e, de certo modo, repetindo uma forma conhecida de buscar reconhecimento.

Talvez o parceiro seja realmente inteligente. Mas isso deixa de ser o ponto principal. O risco é enxergar apenas aquilo que confirma uma fantasia, em vez de conhecer a pessoa em sua singularidade.

É nesse sentido que a paixão pode ser entendida como um encontro entre desejos, fantasias e projeções. Apaixonamo-nos, muitas vezes, não apenas pela pessoa real, mas também pela fantasia inconsciente que construímos sobre ela.

Quando um relacionamento amadurece, algo importante acontece: aos poucos, renunciamos à esperança infantil de que o outro preencherá completamente nossas faltas ou corresponderá perfeitamente às nossas fantasias. Passamos a nos relacionar menos com a imagem que criamos e mais com a pessoa que existe. Descobrimos que nenhuma relação elimina por completo as faltas e os limites que fazem parte da condição humana.

Talvez essa seja uma forma de normalidade: construir um vínculo mais próximo da realidade, reconhecendo o outro como alguém diferente de nós, e não apenas como alguém destinado a satisfazer nossas expectativas.

Ser normal também pode significar desenvolver maturidade emocional: tolerar frustrações, aceitar limites, ouvir um "não" sem vivê-lo como uma rejeição absoluta, adiar gratificações quando necessário e construir uma relação mais saudável com o trabalho e com as pessoas, sem repetir automaticamente antigos conflitos familiares. Não por acaso, Freud associava a saúde psíquica à capacidade de amar e de trabalhar.

A psicanálise não promete eliminar o sofrimento. Como lembra Juan-David Nasio, sempre restará uma parcela dele. Afinal, viver implica lidar com perdas, limites e desejos que nunca se realizam completamente. A questão não é viver sem conflitos, mas poder reconhecê-los, compreendê-los e não ser completamente dominado por eles.

Talvez ser normal seja justamente isso: deixar de buscar uma perfeição impossível e aceitar que uma vida psíquica saudável continua tendo angústias, frustrações e contradições. A diferença é que deixamos de ser conduzidos por elas. Elas continuam fazendo parte da vida, mas já não determinam, sozinhas, as nossas escolhas.

 

Gillian Rabelo – Psicanalista

Contato: @gillianrabelo_psicanalista

Celular: +44 7857948091

 
 
 

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